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Entrevista João Dias Mestre - Fidelidade

A APEE - Associação Portuguesa de Ética Empresarial promove a 2.ª edição da ESG WEEK, iniciativa que promove o debate dos grandes temas da Sustentabilidade, enquadrados nos domínios ESG – Environmental, Social, Governance. Decorre em formato presencial com transmissão  via streaming.
Este encontro consiste numa oportunidade para se discutir os desafios atuais, o ambicioso e abrangente pacote de medidas adotado pela Comissão Europeia, nomeadamente a Taxonomia Europeia, a Corporate Sustainability Reporting Directive (CSRD) e atos delegados modificativos, respeitantes aos deveres fiduciários, que se destinam a melhorar o fluxo de fundos para atividades sustentáveis em toda a União Europeia.

A Fidelidade associa-se este ano pela primeira vez à iniciativa.

Em entrevista João Dias Mestre, Diretor de Sustentabilidade, da Fidelidade afirma que “queremos utilizar o nosso poder de influenciar comportamentos e mudança positiva para um mundo e uma sociedade cada vez sustentável.”

1 - Temos a honra de poder contar com a participação da vossa organização nesta iniciativa anual. Quais as razões que levam a Fidelidade a associar-se à ESG WEEK 2023?

Há muito que na Fidelidade, no nosso processo de decisão, na relação com os nossos stakeholders e na nossa atuação do dia-a-dia, somos um agente económico ativo na contribuição para uma sociedade mais próspera, sustentável, saudável e inclusiva. Enquanto agentes económicos responsáveis não queremos ser uma empresa isolada a realizar o seu caminho de impacto positivo, mas sim envolvermo-nos no ecossistema como parte do todo.  Participar na ESG WEEK é, então, para a Fidelidade, a oportunidade de nos envolvermos e apoiarmos eventos de promoção de conhecimento nas diferentes dimensões da sustentabilidade. 

2- Quais os principais desafios com os quais se deparam para a implementação da agenda ESG? Como é que a Fidelidade pode criar valor através de fatores ESG?

Apesar de a Sociedade nem sempre olhar como uma ligação direta, o negócio dos seguros está intimamente ligado à sustentabilidade. A essência da atividade seguradora é prevenir e reduzir os riscos, para garantir o bem-estar e a proteção das pessoas e dos seus bens, servindo como rede de suporte, garantindo assim uma sociedade coesa e resiliente, ora, quanto mais insustentável se torna o mundo, seja na dimensão social, ambiental, de governança, ou económica, mais riscos viveremos. Por exemplo, se a frequência e severidade dos eventos climáticos extremos continuar a aumentar, cada vez mais difícil será segurar as pessoas e os seus bens, assim, as seguradoras não só devem olhar para o seu modo de atuação no sentido de diminuir o seu impacto ambiental, como devem olhar para o impacto direto que estes riscos climáticos têm no seu negócio e identificar formas de contribuir para a sua mitigação.  

Assim, na Fidelidade, assumimos a nossa responsabilidade no caminho para um mundo mais sustentável, tendo como propósito “para que a vida não pare”, pelo que podemos afirmar que a sustentabilidade está no core do nosso negócio, é o nosso negócio. E queremos criar cada vez mais valor positivo, respondendo às necessidades das pessoas e empresas em relação a este momento que vivemos de mudança e de crise a diversos níveis. Ao mesmo tempo, sabendo que o negócio da Fidelidade é complexo, estamos a olhar para a nossa oferta de produtos e serviços e a encontrar não só respostas cada vez mais inovadoras que respondam às necessidades crescentes, mas também cada vez mais sustentáveis nas dimensões ambiental, social e governança. Com isto, não esquecemos o caminho a ser realizado junto de cada um dos nossos stakeholders - clientes, fornecedores, parceiros e, claro, cada uma das pessoas que forma parte da comunidade Fidelidade.  Queremos ser uma empresa de valor crescente para a sociedade, mas também catalisadora de impacto positivo 

3 - Um dos compromissos assumidos pela seguradora é de operar com responsabilidade e em alinhamento com os princípios universais da sustentabilidade, nomeadamente através de ações de impacto positivo na sociedade? Pode elencar algumas dessas ações?

Sem dúvida, e é um compromisso que levamos muito a sério! Uma seguradora, como todas as outras empresas, deve operar com responsabilidade, gerando impacto positivo social e ambiental, não descorando a necessidade de diminuir/atenuar todo o impacto negativo que possa gerar diretamente ou através da sua cadeia de valor.

Para nos ajudar neste caminho, fazemos parte de iniciativas colaborativas como o Global Compact e o Principles for Sustainable Insurance (PSI) onde, não só nos comprometemos com os seus princípios de sustentabilidade, como também são fonte de apoio neste desafio. Segundo o PSI, o seguro sustentável é uma abordagem estratégica em que todas as atividades da cadeia de valor do seguro, incluindo as interações com os stakeholders, são realizadas de forma responsável e voltada para o futuro, identificando, avaliando, gerindo e monitorizando os riscos e oportunidades associados a questões ambientais, sociais e de governança.

Na Fidelidade, no nosso caminho para uma seguradora cada vez mais sustentável e de impacto positivo em todas as suas vertentes, procuramos reduzir riscos, desenvolver soluções inovadoras, melhorar o desempenho dos negócios e contribuir para a sustentabilidade ambiental, social e económica. Para tal, a nível social e ambiental, estamos empenhados em tornar os nossos produtos e serviços cada vez mais sustentáveis e que impulsionem comportamentos e escolhas mais sustentáveis nos nossos clientes. A nível social procuramos e queremos ter cada vez mais produtos que diminuam o gap de proteção existente, ou seja, que sirvam as comunidades ainda sub-servidas de seguro. Já a nível ambiental, não queremos ser um agente solitário que diminui apenas a sua pegada de carbono, mas, ao mesmo tempo que alteramos processos e ações para redução da nossa pegada, queremos motivar outros a realizarem este caminho connosco, sejam clientes, parceiros, fornecedores, colaboradores nas suas vidas pessoais, entre outros. Por fim, ao nível da dimensão de governança, temos especial atenção às nossas pessoas, prova disso é estarmos entre as 5 melhores grandes empresas para trabalhar em Portugal, distinção atribuída pelo Great Place to Work 2023.

De modo a sermos totalmente transparentes sobre a nossa forma de atuação e sobre os compromissos que assumimos na área da sustentabilidade, e apesar de não sermos uma empresa cotada em bolsa com as obrigações legais que daí advêm, há vários anos que realizamos e publicamos o nosso relatório de sustentabilidade.

4 - No âmbito do Acordo de Paris e do Plano de Ação da EU, a União Europeia adotou um quadro regulamentar que abrangerá, em Portugal, uma franja significativa de organizações. O setor segurador tem um papel fundamental a desempenhar para que se possam atingir os objetivos definidos. De que forma é que prevê que este novo quadro legislativo europeu relativo aos aspetos ESG impactem a Fidelidade e a sua Cadeia de Valor?

O âmbito do Acordo de Paris e o Plano de Ação da EU, toca especialmente a dimensão ambiental. Neste campo, a Fidelidade pretende atuar não só como agente económico individual, reduzindo as suas emissões, mas também como agente de mudança positiva, influenciando a mudança na sociedade para a transição ecológica, através de uma atuação junto dos seus diferentes stakeholders. Assim, queremos ter um papel proativo em duas dimensões: 1. reduzindo a nossa pegada de carbono direta e 2. tendo cada vez mais respostas que influenciem os comportamentos na sociedade no caminho para um mundo cada vez mais ambientalmente sustentável, contribuindo assim para reduzir a nossa pegada de carbono indireta.

De momento, estamos a calcular a nossa pegada a nível do Grupo, nas nossas 12 geografias espalhadas por 4 continentes, e assumimos o compromisso de sermos neutros em carbono já em 2025, no âmbito das nossas operações, scopes 1 e 2 e no scope 3, neste último, no âmbito das viagens de negócio. Para isso, o nosso principal foco estará na redução, de forma significativa, das nossas emissões, implementando todas as medidas que possam contribuir para uma menor pegada. Por exemplo, em Portugal, já em 2023, consumiremos apenas energia de fontes renováveis. No entanto, como é compreensível, será impossível reduzir totalmente a nossa pegada, pelo que, para o alcance desta meta, investiremos, também, em projetos sumidouros de carbono e criámos, em particular, um Fundo Florestal em Portugal, já aprovado pela CMVM como um fundo artigo 9º (Dark Green, segundo a regulação SFDR), que simultaneamente potenciará a criação de ecossistemas sustentáveis, criará emprego na zona interior do país e será um contributo para atenuar o flagelo dos fogos florestais.

Simultaneamente, iremos disponibilizar cada vez mais soluções de negócio que promovam comportamentos sustentáveis, como produtos de poupança e investimento exclusivamente em empresas e entidades verdes ou produtos que promovam a mobilidade verde.

 

5 -  Em 2020, o Grupo Fidelidade redefiniu a sua Política de Investimentos para passar a integrar fatores ESG, os quais chamou “Fator ESG Compliant”, nos seus princípios e processos de investimento. Um método que avalia qualitativamente os riscos em matéria de sustentabilidade. Que avaliação faz ao fim destes três anos?

A gestão dos investimentos é uma atividade chave para a resiliência e rentabilidade de uma seguradora como a Fidelidade. Uma gestão responsável destes ativos é essencial para garantir que uma seguradora consegue responder às suas responsabilidades perante os seus clientes. Temos também consciência que, dada a significativa dimensão da carteira de ativos que a Fidelidade tem sob gestão, é de superior importância que, no âmbito de uma atuação responsável, sejam considerandos critérios de sustentabilidade. Esta atuação fomenta dois benefícios claros: 1. Uma influência direta e positiva na transição para uma sociedade mais sustentável e 2. Uma contribuição para a sustentabilidade e resiliência financeira desta componente chave do negócio da Fidelidade, por acreditarmos que os critérios ESG serão preponderantes para a rentabilidade dos investimentos no médio-longo prazo.

Deste modo, desde 2020 adaptou um conjunto de fatores ESG que permitem avaliar os nossos investimentos, qualificando-os assim como ESG compliant ou não, estando os mesmos vertidos na nossa política de investimentos.

Este é um processo que se encontra em constante melhoria, no sentido de o tornar mais robusto, desde logo por uma recolha mais exaustiva de informação de qualidade que permita aferir de forma mais correta e segura o grau de alinhamento dos nossos investimentos com os critérios ESG. Como sabemos, a sustentabilidade comporta um conjunto vasto de temas, alguns dos quais ainda carecendo de uma metodologia comummente aceite e comparável internacionalmente e que nos permita verdadeiramente tomar as melhores decisões.

Por exemplo, ainda durante o ano 2023, faremos uma análise detalhada à nossa carteira de investimentos no que concerne à sua pegada de carbono. Quantificaremos assim a nossa pegada atual, estimaremos a sua evolução futura e avaliaremos os naturais trade-offs entre pegada de carbono e rentabilidade dos ativos. Estaremos assim em condições de definir uma meta credível para atingirmos o objetivo Net-Zero nos nossos investimentos, garantindo assim uma atuação responsável ao nível ambiental sem descurar a necessidade de manter a rentabilidade financeira, aspeto crítico para responder às nossas obrigações junto dos nossos clientes.

6 - O Plano de Poupança Reforma PPR 40+ ESG, lançado por vós em 2021, promove características ambientais ou sociais. Há planos para lançar no futuro outros produtos que tenham em consideração fatores ESG?

A nossa missão é preparar o futuro, assim, no momento, estamos a avaliar os nossos produtos e serviços segundo critérios ESG. Por um lado, existirão certamente oportunidades para melhorar e robustecer os mesmos, garantindo a maximização do seu impacto positivo para a Sociedade. Por outro lado, estamos a avaliar oportunidades de negócio para lançar novos produtos e serviços que respondam a necessidades presentes e futuras das pessoas, devido aos riscos que as diversas crises, ambientais e sociais, representam hoje, e cuja tendência de agravamento se tem agudizado.

O chamado gap de proteção era já elevado, ou seja, a necessidade de proteção de pessoas e bens era já muito superior aos seguros que as empresas e os particulares têm subscrito (por exemplo, apenas 50% dos custos que os eventos naturais extremos originaram a nível mundial se encontravam seguros), mas a cada ano este mesmo gap tem aumentado. É responsabilidade das seguradoras encontrar formas de reduzir este mesmo gap providenciando soluções eficientes que respondam a estas necessidades prementes da sociedade, contribuindo em paralelo para a mitigação destes mesmos riscos.

Um dos nossos pilares é trabalhar para uma maior literacia financeira dos nossos clientes e da sociedade em geral. A Fidelidade está presente na vida das pessoas em todas as idades, a longevidade é, na verdade, uma temática central que nos acompanha na nossa atuação. Acreditamos que cada pessoa deve preparar o seu futuro e, para tal, a poupança para a reforma é de crucial importância. A Fidelidade quer assumir um papel ainda mais relevante na mudança do paradigma atual em que a maior parte da população portuguesa ainda não poupa de forma estruturada e relevante na preparação para esta fase da vida. Através dos nossos produtos financeiros, onde se enquadram os nossos planos de poupança reforma (PPR) e outros produtos de investimento, para além de terem um impacto social direto, dando uma resposta concreta que fomenta a poupança, podem, diria mesmo, devem também gerar um impacto positivo a nível ambiental e social. Para tal, temos procurado lançar soluções como o PPR 40+ ESG, que investe o montante do produto em ativos ESG-compliant. Para além deste produto, disponibilizamos a app Fidelidade MySavings, que permite a subscrição e monitorização da poupança/investimento dos nossos clientes, tendo já uma opção de investimento sustentável. Continuaremos a avaliar o lançamento de outros produtos e serviços sustentáveis, tanto ao nível da poupança como das restantes linhas de negócio.   

7 - Que mensagem final deixa aos seus stakeholders em matéria de ESG?

A sustentabilidade é um caminho que só tem sentido se for percorrido em conjunto e na Fidelidade, queremos percorrer junto de cada um dos nossos stakeholders. Por um lado, sabemos que sem o nosso ativo mais valioso, as nossas pessoas, a mudança não se dá, precisamos do envolvimento de cada pessoa que faz parte da Fidelidade e, para tal, para além de criarmos momentos de informação e capacitação já estamos a envolver e trabalhar em conjunto com as diferentes direções e, claro, com as diferentes empresas existentes no grupo e em todas as geografias onde estamos presentes. Ao mesmo tempo, a Fidelidade não está sozinha, temos os nossos parceiros connosco, desde os mediadores e corretores a fornecedores, queremos apoiar os nossos parceiros no seu caminho de transição, potenciando momentos de formação e partilha, ou seja, queremos que o caminho seja percorrido em conjunto aprendendo uns com os outros. Porque a sustentabilidade é da responsabilidade de todos, fazemos parte de diversos grupos e associações onde nos sentamos com diferentes empresas, do mesmo sector ou de outros, e em conjunto partilhamos, discutimos e trilhamos este caminho. Por fim, mas não menos importante, queremos ter soluções cada vez mais adaptavas às novas necessidades dos nossos clientes, dando resposta a riscos emergentes, continuando a ser inovadores, sempre sem deixarmos ninguém para trás. Assim, como empresa, queremos utilizar o nosso poder de influenciar comportamentos e mudança positiva para um mundo e uma sociedade cada vez sustentável.